Despindo a timidez

Timidez não é doença e muito menos uma neurose. Ela pode ser tanto um sintoma quanto uma defesa, algo bem próximo da personalidade. Há casos em que o fator genético também influi, uma vez que, durante a gravidez, muitas mulheres passam por situações emocionais diversas, das quais acabam transmitindo aos bebês após o nascimento. É o que afirma Walter Vieira Poltronieri, doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP).

Como fator genético, o especialista esclarece que cada caso de timidez deve passar por uma avaliação rigorosa, cujo sintoma da timidez precisa ser decifrado com o paciente. Ele exemplifica que mães que tiveram muito medo da perda do bebê, durante uma gestação de risco, por exemplo, podem gerar crianças muito apegadas e com mais medo de enfrentar os desafios da vida, gerando os “hipertímidos”. 

Entretanto, ele esclarece que há pessoas que se valem do rótulo da timidez, das características do tímido (falar pouco, não ter iniciativa, gostar de trabalhar isoladas etc.), de forma deliberada para obter os “Ganhos Secundários”, da teoria do psicanalista Sigmund Freud. Ou sejam para se beneficiar da timidez em determinadas situações. “Há uma timidez usada nas relações humanas como uma estratégia de sedução. A pessoa a utiliza para jogar um charme, fazer um mistério para o outro”, explica Poltronieri.

“Se se coloca como tímido, com timidez, é interessante saber e investigar o porquê. Às vezes, o paciente é apenas uma pessoa mais calma, tranquila ou quer se beneficiar desses ganhos secundários”.

É importante esclarecer que, na timidez compreendida como sintoma, a pessoa se incomoda muito e quer abandonar essa categorização. Como defesa, ela não quer, por exemplo, se expor ao ridículo em alguma ocasião social. “O tímido costuma antecipar a rejeição do outro. Assim, antes que alguém o rejeite, ele já fica na defensiva para não correr o risco de se expor”, esclarece o profissional.

É recomendável buscar ajuda de um psicólogo ou terapeuta quando se sentir paralisado, sem conseguir agir diante das situações de interação social e de relações interpessoais. “Se vier procurar ajuda comigo, depois de um bom diagnóstico, gosto de trabalhar a elevação da autoestima. Uma das técnicas é tirar as outras pessoas de dentro do paciente”, declara Poltronieri.

O “tirar as pessoas de dentro” refere-se a diminuir a importância do que os outros dizem. “Esse medo desse olhar do outro faz com que as pessoas puxem o freio-de-mão da própria energia”, sinaliza.

Poltronieri ressalta que a timidez vem à tona em situações nas quais a identidade da pessoa está sendo testada, questionada e avaliada, como em ambientes escolares e profissionais. Nas academias, ele acredita que a incidência seja baixa devido à suposta “dose de exibicionismo corporal”. No entanto, quando questionado sobre aquelas pessoas que deixam de frequentar as academias por timidez, o psicólogo ensinou algumas técnicas ligadas à comunicação e à Programação Neurolinguística (PNL) para esse tipo de público e a todos os que queiram transpor situações paralisantes ou constrangedoras:

“Pense que você é o dono da academia. Entre para treinar dizendo, mentalmente, que é o proprietário do espaço e só ficam lá quem for autorizado por você. Com essa crença, sua postura em relação ao ambiente já será outra. Haverá modificações neurológicas significativas que auxiliarão a enfrentar a timidez”.

Mas antes de encarar a realidade, o psicólogo recomenda seguir uma das teorias sociais de Erving Goffman*, que diz que “a vida é um teatro e, nos bastidores, devemos ensaiar o que a gente quer ser”. Assim, a técnica a ser colocada em prática é escrever, em casa, o que acha que provavelmente ouvirá no momento do treino e ensaiar e dramatizar bem a situação.

“Se disserem que você é magrinho, responda: sim, eu sou magrinho, por isso estou aqui para ficar mais forte. Se lhe chamarem de gordinho, diga, sorrindo: sou, mas hoje já perdi um grama. Tudo isso sem se tornar refém da situação ou ficar em silêncio diante de uma provocação, porque, se agir assim, sinalizará fragilidade e até conivência com a provocação”, alerta. Ou seja, “ilumine o ruim com algo positivo, sempre mantendo o bom humor”.

Dentro do referencial teórico de Goffman há ainda outra técnica que pode ser usada, que é a do espelho. Nela, neutraliza-se algo negativo de uma determinada postura, verbalizando seu oposto diante da imagem refletida no espelho. “Se você é tímido e acredita que não seja capaz de cantar uma garota bonita, fique em frente ao espelho e diga, por mais de dez vezes: sou capaz de paquerar qualquer garota, como se fosse um mantra. Após a décima vez, se disser com toda emoção de crença, seu cérebro acreditará”, indica Poltronieri.

E, finalmente, ainda segundo o especialista, há outra técnica, que é se abrir para o outro, dizendo o que sente. Ele aponta que, quando se sentir tímido ou envergonhado, o melhor a ser feito é falar para o outro que está com timidez. “Se você falar que está tímido, isso abrirá o canal comunicativo para com o outro. É válido, também, para quebrar o gelo quando estamos conhecendo uma pessoa nova”.

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*Erving Goffman: cientista social, antropólogo, sociólogo e escritor canadense. Notável observador de encontros sociais. Sexto autor, nas Ciências Humanas e Sociais mais citado em trabalhos acadêmicos, à frente Habermas.

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