Vigorexia: um distúrbio na autoimagem!

Em busca do corpo perfeito, algumas pessoas perdem a noção da quantidade e intensidade dos treinos nas academias e acabam esbarrando em uma vilã da saúde física e psicológica: a vigorexia. Considerada como distúrbio, conhecido também por dismorfia, ela é responsável por distorcer a autoimagem de indivíduos predominantemente do sexo masculino. Ou seja, as pessoas rejeitam o que veem no espelho e/ou balança, mesmo estando fisicamente em forma. “É um distúrbio da aparência que faz com que a pessoa queira [treinar] sempre mais”, esclarece o psicólogo Walter Vieira Poltronieri, doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP).

Segundo o profissional, a principal característica da vigorexia é o desejo de ter o corpo mais forte, ligado ao anseio de se atingir uma perfeição idealizada. “A pessoa tem uma fantasia de que se ela tiver um corpo x, o peso y ou os músculos do tipo z será mais feliz”, explica. Tal comportamento pode estar relacionado ao complexo de inferioridade, no qual o indivíduo precisa sempre mostrar para os outros que é melhor, superior e mais forte. Assim, ele adota dois mecanismos de defesa: a fantasia de que um corpo sarado lhe trará benefícios pessoais – gostar mais de si – e sociais, com mais chances de se ter uma parceria amorosa; e a obsessividade, que fará com que o vigoréxico tenha pensamentos fixos para a musculação exagerada. “A pessoa tem muita dificuldade de se aceitar e acha que sua aceitação virá por meio do corpo, das formas e de suas proporções”, salienta Poltronieri.

Os riscos à saúde são diversos.  Fisicamente, haverá lesões nos músculos pelo treino excessivo sem o devido repouso e, psicologicamente, poderá ocorrer o autobullying, quando a própria pessoa se discrimina em função de não ter atingido o padrão idealizado.  E, no plano das relações humanas, destaque à inibição social, uma vez que, em algumas ocasiões, deixará de frequentar eventos sociais por acreditar que ainda não conseguiu atingir o formato de corpo almejado.

Buscar ajuda médica nem sempre é fácil para os que sofrem desse distúrbio, porque na maioria das vezes esses vigoréxicos não admitem estar com um problema de saúde e/ou psicológico, informa o psicólogo, acrescentando que eles acreditam apenas terem errado na prática de algum exercício ou exageraram na dose dos vitamínicos. “Há também o fato cientificamente provado de que as atividades físicas liberam endorfina e isso traz conforto, o que contribui para que não busquem ajuda”, complementa.

Contudo, essas pessoas precisam procurar apoio profissional, sobretudo quando começam a se sentir aprisionadas, em obsessão por exercícios físicos e/ou percebem que ficam mal se não vão à academia, pensam apenas em dietas e recorrem, às vezes, aos anabolizantes, alerta Walter Poltronieri.

Os primeiros profissionais que podem identificar e tentar ajudar os vigoréxicos são os que estão diretamente em contato com eles, como os instrutores de Educação Física. “A vigorexia é relativamente fácil de identificá-la, porque são pessoas que começam a treinar muito além do que está prescrito na ficha de treinos. E aí está o primeiro erro, em achar que quanto mais treinar, mais massa ganhará”, declara Marco Aurélio Eichenberger, responsável pelo setor de Condicionamento Físico e Musculação da ACM / YMCA São Paulo.

Quando há overtraining, ou seja, sobrecarga de treinos, sem dar um descanso adequado aos músculos, começam a aparecer lesões musculares, tendinites, bursites, degenerações de cartilagens, artrite e até artrose. “Muitas vezes, os músculos nem crescem, porque a pessoa terá lesão atrás de lesão, prejudicando o resultado esperado. O excesso de exercício é tão danoso quanto não fazer algum exercício”, explica.

Marco Aurélio informa ainda que o primeiro passo quando os educadores percebem que as pessoas estão em overtraining é orientá-las, explicando que o excesso não é correto e uma prática segura. Caso persistam, os profissionais são orientados a aconselhar a procura de um psicólogo para ver se existe a possibilidade de um distúrbio de imagem, como a vigorexia.

Poltronieri explica que, para um tratamento de vigorexia, atuaria focado no complexo de inferioridade e no ideal de imagem do paciente: quem ele quer ser, quando ocorreu esse aprisionamento e, naturalmente, as motivações conscientes e inconscientes que o levaram a se dedicar em excesso aos treinos. “Porque nossa vida é muito mais do que o nosso corpo. Então, um tratamento seria explicitar as motivações da prisão corporal, para, posteriormente, ajudá-lo a ampliar o leque de motivações de prazer em outras áreas da sua vida, para que ele vá além do desejo de ser forte e cada vez mais masculino”, justifica.

ATENÇÃO, PAIS!

Segundo especialistas, é na adolescência em que há maio incidência de casos de vigorexia. “Os adolescentes são os mais afetados porque eles estão abandonando o corpo infantil e, na adolescência, a gente quer ter o corpo de gente grande e pode idealizá-lo para ser forte”, explica o psicólogo.

CURIOSIDADE

Enquanto na anorexia a pessoa é extremamente magra e se enxerga obesa, na vigorexia ela é supermalhada e se vê raquítica. A primeira acomete mais indivíduos do sexo feminino, e a segunda, do sexo masculino, como bem explicado na reportagem pelo psicólogo Poltronieri.

 

Fonte: Revista InformACM